quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

E VOCÊ TRANSBORDOU...

    Desde que começou essa pandemia, há quase um ano atrás, eu fiquei observando como estava o seu comportamento diante de tudo isso que nós adultos sentíamos e ainda sentimos: medo, privação, ansiedade, tédio, pouca interação social.
    E você sempre me surpreendeu, passamos 10 meses em casa, quase que o tempo todo somente eu e você, sendo que eu não conseguia te dar muita atenção porque tinha que conciliar o trabalho, as funções de casa, as refeições, suas aulas... sobrava pouco tempo no dia para relaxar e ficar exclusivamente com você. Seu comportamento ficou dentro da normalidade, as vezes reclamava, mas a nossa relação ficou muito mais estreita, você sempre tão amorosa e divertida.
    Mas, há alguns dias, você deixou extravasar a sua tristeza, frustração, preocupação e medo. Chorou "sentida", as palavras mal saiam da boca. Não sei se foi coincidência por ter voltado as aulas e se deparado com uma realidade diferente, onde o contato físico foi tão restrito, e presenciar com os medos das outras pessoas. Também tinha o fato do seu Tato Gabriel ter se contaminado e precisar ficar internado alguns dias. Você podia sentir que estávamos apreensivos, sempre colocando o nome dele nas nossas orações.
    E foi assim que, numa noite, depois do nosso ritual para dormir - banho, pijama, escovação, história e oração - que antes de você se entregar para o cansaço, começou a soluçar baixinho e , quando eu percebi, deixou tudo transbordar: "Mãe, eu quero ver meus Dindos, meus primos e tios, não pelo telefone, eu quero abraçar! Não aguento mais esse negócio de ficar de máscara e não respirar direito, de não poder abraçar meus professores e coleguinhas. Eu não quero morrer, eu quero a vacina! Já tomei 65 vacinas - não sei de onde tirou esse número - mas eu só quero uma, a do Corona". Aquilo me pegou tão despreparada que não consegui me conter, te abracei e chorei junto. Aquilo me desestruturou, eu não sabia nem que palavras usar para te tranquilizar, só te abracei e disse, "Isso vai passar". Você chorou mais um pouco, fui te acalmando e explicando sobre as pessoas que já foram vacinadas, que nossa vez logo chegaria e você acabou dormindo.
    Fui pra cama com um misto de tristeza e revolta. Saber que isso está te afetando desse jeito e ver o quanto as "autoridades" não estão se lixando para isso, para as famílias que choram seus entes queridos, para as pessoas internadas, gente morrendo sem oxigênio, crianças amedrontadas sem saber direito o que está acontecendo. Também me revolta ver que muitas pessoas perderam totalmente o medo de se contaminar e contaminar pessoas próximas, parentes, colegas de trabalho, tudo por curtição, sem necessidade alguma... Perdi o sono, a cabeça doía, o coração doía.
    No dia seguinte você já amanheceu melhor, já estava falando que logo seríamos vacinados e tudo isso ia acabar.
    Eu me sinto exausta com isso tudo, mas jamais com vontade de jogar tudo pro ar, só cansada de sentir medo mesmo. Só queria acordar e ver que tudo passou, mas logo cedo já vamos no carro acompanhando a triste realidade, que ainda vamos ter que conviver com esse sentimento por um longo tempo.
    Mas a mamãe sempre estará aqui segurando sua mão - de máscara e álcool gel ❤

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