segunda-feira, 20 de julho de 2020

PRIMEIRAS SEMANAS E PUERPÉRIO


Eu costumo dizer que Deus foi muito bom pra mim, minha recuperação foi muito rápida, eu me movimentava sem dificuldades desde que saí do hospital, praticamente não sentia dores. As pessoas sempre me perguntavam se havia sido parto normal porque eu realmente estava me sentindo muito bem. Acho que só pode ter sido obra Divina, já que dois dias depois minha irmã precisou ir embora para São Paulo e seu pai precisou voltar a trabalhar. Foi um teste de fogo mesmo, totalmente inexperiente e sozinha. Logo seu vovô Zé chegou também, aí ele ajudava nos afazeres domésticos e aquele bolo de fubá que nunca mais vou comer igual na vida, foi uma benção.
Tive muita dificuldade para amamentar, mas fui teimosa! O leite descia, mas a pega não dava certo, eu estava muito ansiosa. E você, bravinha desde bebê, sabia fazer um bom escândalo. Nas primeiras semanas fui com seu pai em um hospital daqui de Cuiabá para receber ajuda das Doutoras do Peito, para que me orientassem melhor do que no pós parto. Foi tão perfeito, as meninas foram tão pacientes e carinhosas! Você pegou direitinho e mamou por meia hora sem parar. Dormiu o resto do dia, parecia um milagre. Eu achava que esse era um problema superado, mal sabia que era só o começo. De tanto fazer a pega errada, meus seios começaram a ficar feridos, a dor era indescritível. Uma vez, no meio da madrugada, me lembro de você desesperada tentando mamar e o leite saindo misturado com sangue, eu desatei a chorar agarrando com força a mão do seu pai, dizendo: “Porque eu fui inventar isso, meu Deus?”.
Mas a sua mãe quando cisma com uma coisa não há quem tire da cabeça. Comecei a tentar tirar leite com uma bombinha manual, eu suava e não conseguia tirar nada. Uma vez, fui te dar o pouquinho que tirei e coloquei em um copinho como as Doutoras haviam ensinado. Porém, no nervosismo, te dei o leite com você inclinada e ao engolir você afogou. Esse foi o momento que mais senti medo na vida: Você roxinha, seu avô com os olhos arregalados e, apesar do meu pânico, tive a frieza de te posicionar e fazer a manobra do desengasgo. Graças a Deus você voltou rapidamente e aí a moleza tomou conta de mim. Só lembro de te entregar para o meu pai, totalmente apavorado, e sentar no sofá, meio que desfalecida. Não passou nem um minuto e fui tomada por uma fúria, misturada com determinação e medo, que me levantou. Comecei a arrumar suas coisas feito doida, me arrumar e saímos novamente em busca das Doutoras. Não era possível que eu tinha leite e não ia alimentar minha filha.
Chegando lá, novamente muito bem atendida, consegui te alimentar e você apagou mais uma vez. Já tinha tentado todas as receitas caseiras que havia na face da Terra, mas não dava certo, o problema estava na minha cabeça e no meu nervosismo. Foi mais de um mês alternando entre a fórmula e o peito, mas nunca desisti do sonho de amamentar.
 Em uma das consultas de pós parto com a Dra. Fabíola, desabei e falei da minha frustração, então ela me receitou uma medicação para me acalmar: foi como abrir uma porta mágica, você grudou no meu peito e só foi largar com quase dois anos de idade. Eu me senti tão realizada e feliz por ter batalhado tanto por esse sonho e ter finalmente conseguido. Lembro de nos primeiros meses que retornei ao trabalho, eu ia duas vezes ao dia no hotelzinho para te amamentar e depois, até os seis meses, eu tirava com a bombinha elétrica (outra benção na minha vida) e guardava para mandar no dia seguinte.
Por conta desse e de outros desafios que tive que enfrentar no puerpério, eu acabei emagrecendo mais do que engordei na gestação. As pessoas vinham me visitar e diziam que estava parecendo um zumbi.
Seu vovô foi embora quando você tinha uns 15 dias e aí o negócio ficou ainda mais complicado. Mas de certa forma eu já estava sabendo como você “funcionava” e logo consegui me acostumar com a loucura toda.
Seu pai foi tão importante, mas tão importante nesse momento, minha filha. Ele não teve preguiça, se eu acordava ele acordava – mesmo não sendo capaz de amamentar – ele te dava banho, te trocava, fazia comida, limpava a casa, enfim, foi PAI com letras maiúsculas. Estávamos de mãos dadas, por mais difícil que fosse o momento, sempre por você.

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