Eu costumo
dizer que Deus foi muito bom pra mim, minha recuperação foi muito rápida, eu me
movimentava sem dificuldades desde que saí do hospital, praticamente não sentia
dores. As pessoas sempre me perguntavam se havia sido parto normal porque eu
realmente estava me sentindo muito bem. Acho que só pode ter sido obra Divina,
já que dois dias depois minha irmã precisou ir embora para São Paulo e seu pai
precisou voltar a trabalhar. Foi um teste de fogo mesmo, totalmente
inexperiente e sozinha. Logo seu vovô Zé chegou também, aí ele ajudava nos
afazeres domésticos e aquele bolo de fubá que nunca mais vou comer igual na
vida, foi uma benção.
Tive muita
dificuldade para amamentar, mas fui teimosa! O leite descia, mas a pega não
dava certo, eu estava muito ansiosa. E você, bravinha desde bebê, sabia fazer
um bom escândalo. Nas primeiras semanas fui com seu pai em um hospital daqui de
Cuiabá para receber ajuda das Doutoras do Peito, para que me orientassem melhor
do que no pós parto. Foi tão perfeito, as meninas foram tão pacientes e carinhosas!
Você pegou direitinho e mamou por meia hora sem parar. Dormiu o resto do dia,
parecia um milagre. Eu achava que esse era um problema superado, mal sabia que
era só o começo. De tanto fazer a pega errada, meus seios começaram a ficar
feridos, a dor era indescritível. Uma vez, no meio da madrugada, me lembro de
você desesperada tentando mamar e o leite saindo misturado com sangue, eu
desatei a chorar agarrando com força a mão do seu pai, dizendo: “Porque eu fui
inventar isso, meu Deus?”.
Mas a sua mãe
quando cisma com uma coisa não há quem tire da cabeça. Comecei a tentar tirar
leite com uma bombinha manual, eu suava e não conseguia tirar nada. Uma vez,
fui te dar o pouquinho que tirei e coloquei em um copinho como as Doutoras
haviam ensinado. Porém, no nervosismo, te dei o leite com você inclinada e ao
engolir você afogou. Esse foi o momento que mais senti medo na vida: Você
roxinha, seu avô com os olhos arregalados e, apesar do meu pânico, tive a
frieza de te posicionar e fazer a manobra do desengasgo. Graças a Deus você
voltou rapidamente e aí a moleza tomou conta de mim. Só lembro de te entregar
para o meu pai, totalmente apavorado, e sentar no sofá, meio que desfalecida.
Não passou nem um minuto e fui tomada por uma fúria, misturada com determinação
e medo, que me levantou. Comecei a arrumar suas coisas feito doida, me arrumar
e saímos novamente em busca das Doutoras. Não era possível que eu tinha leite e
não ia alimentar minha filha.
Chegando lá,
novamente muito bem atendida, consegui te alimentar e você apagou mais uma vez.
Já tinha tentado todas as receitas caseiras que havia na face da Terra, mas não
dava certo, o problema estava na minha cabeça e no meu nervosismo. Foi mais de
um mês alternando entre a fórmula e o peito, mas nunca desisti do sonho de
amamentar.
Em uma das consultas de pós parto com a Dra.
Fabíola, desabei e falei da minha frustração, então ela me receitou uma
medicação para me acalmar: foi como abrir uma porta mágica, você grudou no meu
peito e só foi largar com quase dois anos de idade. Eu me senti tão realizada e
feliz por ter batalhado tanto por esse sonho e ter finalmente conseguido. Lembro
de nos primeiros meses que retornei ao trabalho, eu ia duas vezes ao dia no
hotelzinho para te amamentar e depois, até os seis meses, eu tirava com a
bombinha elétrica (outra benção na minha vida) e guardava para mandar no dia
seguinte.
Por conta
desse e de outros desafios que tive que enfrentar no puerpério, eu acabei
emagrecendo mais do que engordei na gestação. As pessoas vinham me visitar e
diziam que estava parecendo um zumbi.
Seu vovô foi
embora quando você tinha uns 15 dias e aí o negócio ficou ainda mais
complicado. Mas de certa forma eu já estava sabendo como você “funcionava” e
logo consegui me acostumar com a loucura toda.
Seu pai foi
tão importante, mas tão importante nesse momento, minha filha. Ele não teve
preguiça, se eu acordava ele acordava – mesmo não sendo capaz de amamentar –
ele te dava banho, te trocava, fazia comida, limpava a casa, enfim, foi PAI com
letras maiúsculas. Estávamos de mãos dadas, por mais difícil que fosse o
momento, sempre por você.
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